Eu nasci para ser a outra. Gosto de saber que, sim, ele está com uma mulher quando não está comigo. Assim não vou para a cama pensando: “será que ele está com uma mulher quando não está comigo?” Gosto de pensar que, na verdade, essa outra mulher sou eu, ou seja: eu sou quem tanto temo, então posso ficar tranquila. Ou excitada.
Mas não pensem que faço mal para a humanidade, estragando famílias que Deus uniu. Eu salvei o lar desse homem. Meu sexo à tarde faz com que ele chegue cheio de apetite para o sexo com sua esposa à noite. E, tendo a mim, ele fica mais tranquilo para não se achar um loser por ter apenas sua mulher. Meus carinhos o acalmam. Ele entra cheio de paz (e alguma culpa) em casa, tratando a todos com doçura e paparicos. Seus filhos nunca estiveram tão saltitantes. A culpa de um homem é um fermento riquíssimo para o crescimento saudável de proles. Sua mulher nunca gastou tanto dinheiro, nunca teve tantos cursos idiotas bancados com gosto pelo marido orgulhoso. Eu cheguei para trazer felicidade e harmonia a essa família. O sexo proibido tem a presença de anjos e deuses. O orgasmo do sexo proibido vem como ondas nervosas e erradas de um mar descongelado. Os beijos do amor proibido são céus da boca que tentam se encontrar em vão. São unhas tentando levar um pouco daquela pele para aquecer a cama à noite, quando ele está com outra. É o sexo do ódio e, por isso, com o mais puro amor honesto. E, depois, na hora do descanso, na hora do silêncio, na hora da escuridão, nós, as amantes, dividimos o amor com aquela esposa que sabe de tudo, mas fica quieta apenas porque não o ama tanto quanto nós. Porque quem ama grita.
- Retirado: Revista Alfa
